Segunda, 28 de julho de 2003 - Site Cultural Muito - www.muito.com.br

 


 

 

'Rio Ota' banhará para sempre
as mentes mais privilegiadas 
 
Espetáculo é completo e poeticamente rico, e
destaca o talento nobre da atriz Maria Luisa Mendonça,
a engrenagem principal
 
Por Marcus Vinícius Gabriel. Especial para o www.muito.com.br  
 
 
“Os Sete Afluentes do Rio Ota” é uma obra-prima para marcar história. São José do Rio Preto viu, como presente dos céus, duas sessões de cinco horas da montagem monumental das diretoras Monique Gardenberg e Michele Matalon. Nada mais celestial no encerramento de um festival que sociabilizou mais o globo, à cidade. A maior produção teatral contemporânea brasileira, iluminando o palco do Teatro Municipal. Raridade aos mortais.

Completamente densa e imperiosa, a peça não merece resumos. Ficaria inóquo e, claro, injusto. É uma das maiores equipes técnicas envolvidas numa obra histórica do canadense Robert Lepage, ultra-integrada pelo olhar de Monique. Quatorze atores de nível soberbo e laboratorial fizeram do espetáculo o degrau mais alto da arte teatral. Para quem achava 5 horas de duração um peso para o inconsciente, saiba que tamanha experiência está anos-luz de viajar de Cometa para São Paulo. É inesgotável o brinde do tempo.

“Rio Ota” invade as mentes e traz, historicamente, o passado, presente e futuro de Hiroshima, o berço da paz universal, castigada pelo poderio indulgente e assassino. Uma lição de vida.

É notável e arrebatadora a presença da atriz Maria Luisa Mendonça. Sublime e completa, é a engrenagem do espetáculo. A atriz iluminou o Municipal, ao encarnar uma histérica e desbocada dona de pensão na Nova York de 1965; impressionou ao se passar por uma garotinha tcheco-eslovaca de 11 anos; sublinhou a perfeição como Hanako Yamashita, o pilar japonês da história. Maria Luisa Mendonça é um satélite em órbita no espaço teatral. É uma estação espacial.

O trunfo de Monique Gardenberg resume-se na competência de saber fazer, saber unir peças de um tabuleiro grandioso, saber observar e entender como lecionar ao público o teatro enquanto linguagem globalizada. Confidenciou-me que, dentre os 7 episódios do espetáculo, o mais difícil foi conceber a arquitetura dos diálogos em francês. O ator belga Thierry Tremouroux, ao lado da mulher e atriz Lorena da Silva, coordenaram a cena, concentrada também na atriz Beth Goulart. “Ela não falava francês, fez aulas e mostrou-se magistralmente”, disse Monique. É notável também todo o jogo cênico, que envolve uma sincronia perfeita entre vídeos, cenografia, a iluminação minimalista de Maneco Quinderé, e trilha sonora para não esquecer. Enfim, tudo.

“Os Sete Afluentes do Rio Ota” é um rio que banhará para sempre nossas mentes. Um privilégio poder estar no Municipal e ver tal obra. Monique, não esquecerei de vocês. Parabéns.

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Marcus Vinícius Gabriel, 33, é publicitário em

São José do Rio Preto / SP. mvgprop@unorpnet.com.br

 

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