"MERCADO CULTURAL E PATROCÍNIO"

Por Marcelo Zamora - Revista Dança & Cia - www.dancaecia.com.br

 

Como faço para conseguir patrocínio? Porque outros conseguem e eu não? É assombrosa a freqüência com que estas perguntas surgem. Basta um rápido olhar e já se vislumbram carências na estrutura das companhias de dança. Inicialmente é difícil encontrar as que estejam juridicamente estruturadas, ou seja, constituídas legalmente. Este único fato inviabiliza qualquer tipo de apresentação de projetos de patrocínio, parcerias com poder público ou fontes de recursos. A Razão Social e CNPJ são esta identidade, e ela pode ser obtida se o grupo se estabelece como uma empresa, micro-empresa, ONG, associação e/ou cooperativa. Para isso, deve-se procurar um escritório de contabilidade ou assessoria especializada que analise o melhor enquadramento.

O passo seguinte é a elaboração de material que represente dignamente o potencial do produto cultural. A partir daí e de uma observação profunda das circunstâncias, as estratégias devem ser definidas.

Existem leis de incentivo Municipais, Estaduais e Federais, cada uma com sua regulamentação específica. Dentro das Leis Municipais, a mais eficiente parece ser a da Prefeitura de São Paulo (Lei 10.923/90, conhecida como Lei Mendonça), e outras como as do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. Já a nível estadual, há boas condições no sul do país (Rio Grande do Sul e Santa Catarina), além do estado de Pernambuco, que está mudando sua legislação para distribuição direta dos recursos disponíveis (sem a intermediação de captadores). Na esfera Federal, a Lei Rouanet também passa por mudanças, algumas já providenciadas pelo governo FHC e outras anunciadas pela equipe do PT, aparentemente visando uma distribuição eqüitativa dos recursos, atualmente concentrados no eixo Rio – SP – BH.

Finalmente, uma série de editais tem apoiado grande número de projetos nestes últimos anos. O mais novo e que já mostra excelentes resultados é o EnCena Brasil do Governo Federal, Minc e Funarte, que viabilizou nos últimos 2 anos uma série de produções e circulações pelo Brasil afora. Uma contribuição louvável, assim como o Edital Petrobrás Artes Cênicas, criado há 2 anos pela estatal e que já está em processo de escolha de novos projetos na área de artes cênicas (o resultado sai até 31 de janeiro de 2003), que se somarão aos 6 escolhidos em 2002. A empresa patrocina por diferentes mecanismos algumas companhias de dança.

Embora a elaboração de projetos nestas leis e editais pareça simples, é fundamental a participação de um especialista que, além de considerar as necessidades estruturais do projeto, não deixe de lado detalhes técnicos (próprios de cada lei) que possam dificultar o processo de prestação de contas e auditorias.

É ingenuidade pensar que projeto aprovado significa fim das dificuldades. Na verdade é somente então que a batalha começa, e os dados não são nada alentadores. Independente da esfera (municipal, estadual ou federal), o certo é que menos de 5% dos projetos aprovados conseguem captação total, e não chega a 15% o número de projetos com captação parcial. Aqui entra novamente a questão da equipe bem constituída e os profissionais idôneos para cada área. Existem empresas e profissionais autônomos que realizam a captação. Geralmente há uma preferência por setor, por isso é importante observar se o perfil do captador é adequado a seu projeto, e vice-versa. Em casos muito particulares, a opção é realizar a captação de seu projeto pessoalmente, afinal, ninguém o conhece mais e saberia como defendê-lo, melhor ainda quando se possui contatos ou conhecidos dentre os possíveis incentivadores.

Existem no país algumas companhias que desfrutam de uma estabilidade e continuidade de patrocínio de provocar inveja. Certamente, esses grupos não apenas merecem como trabalharam duro e por anos para chegar neste estágio. Se companhias como o Grupo Corpo, Déborah Colker, Distrito Cia da Dança desfrutam de incentivo constante de grandes empresas via Lei Rouanet, outras começam a atrair investimentos, como Quasar Cia de Dança, Grupo Cena 11 e Verve Cia de Dança. Algumas companhias oficiais complementam seus recursos com leis de incentivo: Balé do Teatro Guaíra (Lei Rouanet e Governo do Estado do Paraná), Cia Municipal de Caxias do Sul (Prefeitura Municipal e Lei Estadual) Balé de Rio Preto (Prefeitura Municipal e Lei Rouanet).

Entre as companhias privadas, um caso interessante é a Cisne Negro Cia de Dança, que recebe recursos de diversas fontes, entre elas Lei Rouanet e convênios com o Governo do Estado de São Paulo, (assim como o Ballet Stagium), fato muito criticado pela classe que cobrou, na época, uma distribuição mais abrangente dos recursos. É neste ponto que me pergunto: quantos desses críticos possuíam naquele momento uma estrutura jurídica, técnica e artística no nível destas companhias? Isolando o juízo artístico, que não é minha área e, mesmo que fosse é um assunto por demais subjetivo, me pergunto se alguém parou para avaliar os anos de luta de Hulda Bittencourt e sua equipe, o dinheiro investido em material e, porque não, o engajamento político que teve o cuidado de conquistar. Podem 4 ou 6 pessoas que se reúnem uma ou duas vezes por semana ter o mesmo peso para um estado que uma cia destas? Não faço aqui uma defesa deste ou daquele profissional, apenas trago referências que possam ajudar a decifrar o complexo mercado cultural. Parafraseando Jorge Luis Borges digo: “O homem é a conseqüência de seus pensamentos” e trago o exemplo de uma “nova” companhia que traçou um caminho singular na procura de sua estabilidade: a Verve Cia de Dança. Ela foi mudando sua sede de cidade em cidade, até que surgiu o namoro com a administração pública de Campo Mourão, no Paraná. Este pequeno apoio deu a base de sustentação ao trabalho incansável do carioca Fernando Nunes e sua troupe que, depois de sofridas circulações pelo país, muito trabalho e uma vontade enorme de vencer, conseguiram um salto qualitativo assombroso, acompanhado de estrutura de produção, captação e divulgação, o que resultou na efetivação do contrato de patrocínio com uma empresa de telefonia.

Embora existam há um bom tempo, algumas companhias começaram a investir recentemente em sua estruturação jurídica, como é o caso da Raça Cia de Dança de São Paulo que, com mais de 20 anos, iniciou em 2001 o processo de inserção na área do marketing cultural. Um ano depois, a Cia acaba de assinar seu primeiro contrato de patrocínio (via Lei Mendonça) com uma empresa multinacional da área de comunicação de dados, num resultado que podemos considerar rápido para os padrões.

Existe no Brasil grande quantidade de companhias de diferentes tamanhos, qualidades e propostas. Certamente há um investidor adequado a cada perfil. Resta agora a cia se preparar para chegar. Mesmo quando os caminhos estão se abrindo, o acesso à informação está cada vez mais acelerado, e os profissionais mais capacitados. O certo é que ninguém é obrigado a dar dinheiro para ninguém. Estamos então num jogo de sedução, há que preparar o terreno e convencer de que nosso produto é o ideal para determinado investidor. Lembre que não existe resultado sem investimento, portanto, o mesmo deverá ser proporcional ao objetivo pretendido. Não existem milagres.

Como conseguir patrocínio? Simples. Crie a estrutura jurídica adequada, valorize seu produto, divulgue-o, constitua uma equipe de trabalho, dê o devido valor e função a cada profissional e, o mais importante: não perca tempo!

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Marcelo Zamora - Produtor - E-mail: mdzamora@terra.com.br


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