Micro Crônicas Cretinas - Alaor Ignácio

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  • De cabeça 6:30 am | 18 May
    De cabeça para acho, Társio negava sempre um é isso ou aquilo. Sujeito inerte às interpretações e julgamentos. Sentenças, nem pensar! Ou não, era a conclusão inalterável de seus vereditos. Um ente irresoluto entre o bruto e o condescendente. No sábado, combinou com Vilma um cinema, um filme, num shopping. Assim, um qualquer um. Vilma, afinal, lhe dilatara as pupilas, atiçara o miocárdio, sugerira um sumo de paixão naquele poço de hesitação. Poria amarelo ou bastava o cinza? Um par de tênis ou sapatos sociais? Independente de qual roupa, Társio se recusava a mudar sua conduta e ir à luta. Logo sentiu um arrepio de arrependimento. “Podemos não ir?”, arriscou ao telefone, ao menos uma vez. Possessa, Vilma rompeu a relação mal iniciada, e Társio, entre o triunfo e a frustação, tratou de tirar suas conclusões: daria certo, mas não prestaria.



  • Empilhados 6:32 am | 17 May
    Empilhados com rigor mortis, os abacaxis intactos pareciam obedecer ao comando de Janus, feito pelotão em ordem de sentido. Mascotes sondavam os vãos elaborados pelo velho. Buscavam o segredo para aquele exímio equilíbrio da pilha. Janus e seus tantos anos guardavam ocultas as incisões cesarianas que dissimulavam nas casacas, sem melecas ou vestígios, capazes de desaperceberem os olhos dos muitos fregueses que paravam para comprar as frutas. A simetria daquilo era um merchandising prestes a produzir o pão, o leite, o lucro de Janus – apenas um vendedor de abacaxis de beira de estrada, que tinha a calma de um monge e a precisão de um atirador de elite.



  • Na falta 10:24 am | 16 May
    Na falta se fazia sem. Ali, a fartura era mesmo um acaso. Sopa de pedra, carro sem roda, pipoca apesar do milho. Mocinhos se viravam. Moças contavam coisas. Até os cães sabiam que os ossos dependeriam de acidentes com bichos. Nascia-se, mas sem convicção. Se chuva, sorte, naquele Sol forte. O ceguinho entrava em vertigens, o manco era perseguido pelos rastros falhos na areia, a dona porque dava era bem vista. Todas as diferenças vagavam com licença poética. Com esta, se construíam casas, crianças e brinquedos. Pobres? Apenas os mortos. A vigília pela vida, nessa complexa operação, era problema coletivo, sem anestesia.



  • Garfo à direita 6:42 am | 15 May
    Garfo à direita. Do outro lado, a faca. Concernente à pessoa de Horácio, aquele era o começo. As disposições se multiplicavam. O guardanapo haveria de estar sob a faca, de maneira a abrir margem calculada também à taça (ou ao copo, nas situações menos formais). Um homem feito de demarcações, era Horácio, que encarava a obsessão como virtude. Imune ao improviso preferia não comer. Ou morar, se a mesa fosse colocada à deriva do círculo central da sala. Exagerou a tal ponto nas formas, que Madalena se furtou em lhe conceder seu conteúdo. Vosmecê é um ferimento em minha pele de jambo, falou desleixada. Horácio logo apanhou os esparadrapos. Haveria de curá-la aplicando-os em cruz. Dois centímetros em cada ponta...



  • Do assunto 2:12 pm | 14 May
    Do assunto do momento era um completo isento. Desinformado ao ápice. Melhor assim, dizia de boca e convicção cheias. Pouco sabia da política, nenhuma crítica, ilhota em meios aos mares. - Andam lendo pastiches por aí, ouvindo acolá, acessando assuntos o tempo todo. Para o erro do mundo criam alternativas e doenças tardias: depressões, transtornos, sustentabilidades e milhos com gosto de bacon. Sinto tanta cretinice que até poderia me deitar num desses berços esplendidos, ao som do mar e à luz do céu coberto, para aprimorar o ócio que me completa. Se seria uma perversão, porque estaria pelado, pouco me importaria. Não carrego nenhuma conclusão, exceto a de que os velhos são mais maravilhosos ainda quando crianças.



  • Água pela cintura 8:23 am | 13 May
    Água pela cintura é exagero do parasita do 405. Mostrei à minha vizinha hipocondríaca aqui, do 506, que o vazamento em meu apartamento nem de longe se aproxima daquele do 1104, ocorrido há uns cinco anos. Todas aquelas mulheres de vida fácil, do décimo andar, o de baixo, só não ficaram a ver navios porque era impossível levar um transatlântico àquela altura. Processaram o estelionatário do 1104, por lucro cessante. Ele, é claro, deu calote, mas a velhinha histérica do 904 murchou os quatro pneus daquele carrão que ele tinha (que depois a financiadora veio aqui no prédio, deu toda aquela baixaria, e o tirou dele, por falta de pagamento). Já chamei o encanador, disse ao síndico corrupto, agora não tenho culpa se o cara é enrolado. Depois, como o pobre cano da minha pia iria prestar? Se aqui nada e ninguém vale um pingo d'água.



  • Orgulho e convicção 8:04 am | 12 May
    Orgulho e convicção não eram estados na alma de Edelmiro, eram constantes. Daí a julgar tortas todas retas óbvias que Emília lhe apontava. Não aceitou o descanso na gripe, respirou o insalubre trabalho, segurou buchas no costado. Morreu como um peixe, debatendo-se por água, com os olhões vidrados. Emília tratou de repor aquele encosto teimoso, quando se deu com Gumercindo, tímido e indeciso. Ouvia para tudo os conselhos da mulher. Sarou de gripes, trocou de emprego e se desligou das desavenças. Emília, à beira da bílis cerebral, passou a entreter seus tremores criando ao moço ordens absurdas, que o bom companheiro cumpria com a mansidão dos simplórios. Sempre ordeiro, obediente nas ocasiões, risonho. Só chorou naquela manhã fatídica, na qual a mulher se enforcou na despensa.



  • Salvo engano 6:27 am | 11 May
    Salvo engano ou conduto, hei de seguir sempre sem deixar me estraçalharem as mágoas. Abolindo essa escravidão, a reta vibra pelas linhas tortas, em movimento infantil, apanhando a fruta daqui ou parando para observar, ali, a folha de outono que cai sobre o balanço de corda. Assim, fazendo as pazes, evito guerras prováveis, das quais meu exército de dissimulações indiferentes já sai vencedor sem nenhum tiro. Confiro, respiro, conspiro e me inspiro para as variantes de uma espécie de saber emocional, que tergiversa em danças espirituosas, bailados alados, motins sem intenções ou fins. E riso explícito, explique-se, porque a máxima da vida é mesmo não dar a mínima.



  • A condição 2:36 pm | 10 May
    A condição de Adelaide parecia muito pior do que de fato estava. Parecia distinção se lhe perguntássemos sobre sua saúde. Tinha dores e respostas para tudo. Da fala sôfrega à perna ligeiramente manca, queixava-se de um mal maior ao menor sintoma de uma banalidade. Sua bondade, porém, não fazia distinção. Alegrava feirantes e ambulantes, padeiros e aventureiros, elevando todos à condição de médicos graduados, para os quais expunha seus diagnósticos terrivelmente irreversíveis. Andou melhorzinha, quando o jornalista da gazeta, num reverso às histórias de Adelaide, arriscou um exercício ilegal da medicina, e lhe receitou doses diárias de notícias tristes. Como ela logo constatou, no entanto, a coisa funcionou como aquela melhora que se tem antes da morte.



  • Ameaçou o que 11:47 pm | 9 May
    Ameaçou o que existia: sua situação de chefe na consciência dos colegas. Menos pelo descontrole da fala que pela tentativa insana de os corromperem para o silêncio. Não deveria ter chutado a máquina de fotocópias e reproduzido pistas daquele mau humor, que dissimuladamente o habitava. O provocado curto circuito no computador servidor foi um desserviço às horas furtivas que todos usavam para curiosidades múltiplas ou redes sociais. O fim do fôlego, porém, foi causado pela ameaça à Dona Júlia, a faxineira, cujo único desvio foi de impedir que a culpa por tudo aquilo recaísse sobre si. Das demissões, ninguém admitiu que ele ficasse...



  • Cochicho 6:27 am | 8 May
    Cochicho se preciso, mas não gosto. Quando a música não para, o barulho se avoluma ou dá uma vontade boba, então... Não que seja de propósito. Não fosse um esquecido, nem lembrava. Foi pro Heitor que eu disse “lavo as minhas mãos”, assim, num sussurro cochichado, quando queriam saber minha opinião sobre isso e aquilo. De coisa que não tem alcance eu canso, não falo ou então... Tem situação mais besta? A gente tá lá, viu o filme, e logo um pulha quer saber se gostei. Mania de tudo comentar, tudo querer saber. Ah, eu parto, me aparto logo. Vai que é por isso ficam pintando por aí a minha língua de preta? Ela me habita e pronto. Sabe a Cléia? Um dia, assim, mais silencioso, eu te conto.



  • Certamente porque 6:39 am | 7 May
    Certamente porque o azul desse céu há de escurecer até um tom que deixa de ser, não digo agora sua cor. Essas incógnitas do olhar, eu juro, não são distrações. Estão aí, sim. Tão mais reais quanto a abelha que gruda em nossos cabelos sem finalidade alguma. Todos pensam que isso é óbvio, porque ninguém escurece com tal intensidade da tarde para a noite. Meio tolos, comparamos tudo a nós mesmos, esquecendo por esses lapsos que, nesse momento, não somos o centro do universo. Aliás, devemos sê-lo somente na hora da morte, quando nossa grandeza de então deixará um pouco mais de ar, para que outros respirem.



  • Entrou no carro 7:47 am | 6 May
    Entrou no carro sob a chuva. Jamais a havia visto. É para me proteger, ela disse, antes de enfiar o indicador no dial do rádio, porque não gostava daquele jazz que tocava. Sensível aos pingos ela era, explicou depois, e ele, sem outro espaço, ouviu. Então falou coisas dignas. Do tipo que remete aos inesperados momentos aos quais gente, assim como eles dois ali, se vê submetida. Acontece. Meio sem mote ou tema, ele disse é. Ela, então gralha, gracejou acerca do destino, que deve haver, porque senão... Meio julgando cilada ou pensando nos azares que nunca pode evitar, ele sugeriu um destino específico. Te deixo onde, exprimiu, meio interrogativo meio três pontinhos. Sei lá, “aquilo” ali displicente respondeu. Ele freou o carro, pensou um imperativo desça, mas atenuou com um bom, então... No sinal da avenida o senhor pode encostar à esquerda. Ah! Cuidado com o buraco, naquela esquina há vários.



  • Desordenado 6:49 am | 5 May
    Desordenado como uma gripe, o vilarejo cresce sem dar trelas às profecias para as idades dos habitantes. Suas irregularidades étnicas e estéticas são narizes que escorrem. Tosses disfuncionais, apenas pelo prazer do som, que tanto desprazer promove a todos os outros que o ouve. Há meio século ou pouco mais ele me convida a vivê-lo. Quando mudo a trajetória, gera recursos. Se recuo, cria um fausto consumado, tal tivesse a força de um pacto pela permanência da alma. Aquele ali, meio fura bolos, hoje está mais para mindinho. Dona Tânia era a mesmíssima besta quando Taninha. No poço do cataprum agora há enchentes. Febre alta, céu cinzento. Um Sol que não minimiza calor, nem no inverno, nem nos limites de algumas licenças temporais. Mau meio esse meu meio. De agora em diante o óbice cai na gandaia. Ainda que essa última espécie da geração tenha aprendido a gostar de música maneirista portuguesa e pizzas de aliche.



  • Dada a fazer 6:28 am | 4 May
    Dada a fazer prestígios, Gabriela foi desacreditada maliciosamente pelo amargo proprietário da doçaria. A primeira vez reclamou do suposto chocolate granulado de segunda. Depois, da consistência: muito duros ou muito moles, meio à similaridade de seus humores. Mas o homem não tinha planos que se equiparassem às críticas, nem grandeza capaz de separar a insensatez do discernimento. Gabriela bem que tentou reforçar no leite condensado, dulcificar os movimentos, tornar ternos os arranjos de maneira a propiciarem boa visão. O desprezo do homem, entretanto, chegaria às raias da obscenidade, não fosse a interrupção dos laxantes, que Gabriela passou utilizar nos docinhos diários, antes de lhe servir como amostras. Constrangido por outros impulsos, o já nem pensou mais em dizer mal dos prestígios.



  • Como todos 6:45 am | 3 May
    Como todos, Alexandre acreditava naquilo que diziam os fabricantes em suas propagandas, e passava fome. Jamais aprendeu a ter dúvidas ou a arte do esquecimento das mensagens publicitárias. Cria, porque lera, vira ou ouvira. A fome surgiu do regime com uma “ração humana”, que engolia desgostoso em companhia de um refrigerante energético milagroso e eficaz. Faminto, engordara dezenove quilos, sem deixar de multiplicar os slogans dos produtos que assimilava feliz, e que já impregnavam suas vastas medidas. Como um enorme ente platônico, travou a fala na frase: “emagreça sem pressa”, que repetia ligeiro, ao menor sinal de vergonha que pudesse lhe propiciar uma indagação alheia. “Povo inculto”, dizia.



  • Sicrano, não sei 7:20 am | 2 May
    Sicrano, não sei se tem barbas ou não. Alto ou baixo? Louro ou moreno? Essa indeterminação de sua pessoa, na parte que não me toca, lembra o Fulano. Sujeito sei lá. E se quer saber, pouco me importa também, quando chegarem, quem chegará primeiro. Não fiz distinção no horário dos convites, assim, colocando um intervalo de dez ou quinze minutos entre um e outro. Inclusive, pouca ou nenhuma notícia tenho sobre Beltrano. O que penso é que todos devem ser baixinhos, para deixar que qualquer outra pessoa, com CPF, RG e nome próprio ganhe importância sobre eles três. Enfim, devem ser idênticos, “até no fato de acreditarem que são diferentes”.



  • A meia distância 6:32 am | 1 May
    A meia distância do mal, Dourival respondeu que sim assim que o fim de Monique lhe foi entregue pelo chefe. Era véspera de um feriado besta, e fora de Dourival a ideia de pedir que emendassem, logo atribuída à moça, quando o chefe chegou para as satisfações. Disse que não disse, mas que ela dissera. “Insufladora, comunista”, berrou o líder, antes de demiti-la. Um tanto constrangido, Dourival a encontrou na saída: ele para casa, ela para a rua. Bem que oferecia um calhorda adeus, quando sentiu entre as pernas o peso do tênis barato elevado à força de murro bem colocado. Tentou em uivos pedir perdão, mas Monique decidiu que ele emendaria o feriado... por recomendação médica.




  • O mais importante 7:29 am | 30 Apr
    O mais importante é se lembrar. A cada imagem se abre uma imagem nova, e ficará difícil chegar ao deslumbramento se você não pensar na primeira imagem. Este é mais um de nossos muitos paradoxos, disse Gutinho Curry, renomado auto ajudante dos desavisados daquela vila. Ante a perplexidade da plateia, propôs que o mundo deve ultrapassar as barreiras limitativas de nossas fronteiras individuais, colocou a mão no queixo – assim, simulando a estátua de Rodin, e quase sussurrou ao microfone, deixando que todos ouvissem: “somos interessantes!”. O auditório, como em uma coreografia ensaiada, contrapesou que “sim” com a cabeça rumo ao queixo. E os aplausos foram inesquecíveis.



  • Não desandava 7:45 am | 29 Apr
    Não desandava o coração. A cara, quem via, era a de Luiz feliz. Ali, as duas, rosnando e se mirando com garras a postos, insistiam na indenização. Bateram-se aos murros, pescoções e tufos de cabelos. Uma haveria de pagar a despesa do curativo da outra. O juiz apreciava, incomodado. O mal de Luiz foi querer bem às duas. Mão aberta: havia lhes concedido amor, eterno na mesma proporção. Mas aquela paixão lunática de Dirce não soube conviver em paz com a adoração idólatra de Dora. Ele, justiça seja feita, sempre disse sim. Quem diz que não, mente, quem diz que não sabe, inventa. Luiz sempre foi ordeiro: que a lei prevaleça. Querer bem, tudo bem, mas dinheiro para as feridas de ambas ele decididamente não tinha. Deixou isso claro para o juiz, cuja sentença poderia ficar por conta disso.



  • Teclava 6:13 am | 28 Apr
    Teclava, pausava e notava que a próxima nota, mesmo de aparência solta, de fato, faltava. Rapsódia em si próprio, parecia, como se um sustenido insano lhe escapasse da alma. Thelonious Monk conversava com meu encanto, à distância etérea de um silêncio. Por vezes duvidei de minha lucidez, mas passei a crer no sublime com a fé dos loucos. Depois da nostalgia entra a bonança no velho toca discos. E aqui, Thelonious projeta meus próximos passos sem claves de sol. Tão incertos como uma jam session improvável com o pulsar de minha tosse ou do coração. Bom é que nunca admito a falta de acordes para acompanhá-lo. E sigo improvisando...



  • Coberto por um 6:17 am | 27 Apr
    Coberto por um céu carregado, Ludovico coexistia com as pedras. Naquele topo submergia em labirínticas dúvidas sobre a vida na solidão. Era um despreparado para os óbvios da existência, embora não passasse fome, nem sede de água ou desafio. Tinha o íntimo intuito de colocar a eternidade em banho-maria, comer a afobação cozida em fogo brando e meditar propósitos inatingíveis. Ordenhar pássaros lhe era tão comum quanto a sustância do ar ou o leite das pedras. Chorou, sim, quando perdeu o parto da hiena risonha na rala sombra da farinha seca. Nos demais momentos se permitia a felicidade. Espécie de assepsia que lhe lavava a alma.



  • - Não vendo 6:13 am | 26 Apr
    - Não vendo pão francês, vendo o pão de sal. Mas aquele era um pão francês, exceto na voz do português padeiro. Vai ver Josefina de Beauharnais traía Napoleão com todos, exceto com Dom João VI. Pode ser que a fuga da família real para o Brasil obrigou aos bisavôs do padeiro se mudarem para cá. Memória nefasta ou ódio hereditário. Tinha lá suas turras, opinião pertinaz e teimosia casta. Certo é que naquela padaria ninguém nunca comeu croissant, degustou foie gras ou experimentou um naco de camembert. Quem um dia entregou o primo foi o galego Basílio. Contou que o trauma do parente tinha, sim, origem histórica. Madame Albertine jamais quis se deitar com Joaquim Manuel.



  • Sonhava-se 5:54 pm | 25 Apr
    Sonhava-se justo, sendo fanfarrão. Entre ovelhas, uivava, lobo insistente em direitos obscuros e sem nenhum dever capaz de oferecer contrapartida ao rebanho. Bebia aos calotes, se julgando boa companhia em compensação. Arbitrava miudezas, simulando certezas ocultas em suas grandezas. Das opiniões abalizadoras fazia regalos e meios de vida. Até que o menino, filho falho da vizinha honesta, lhe atirou a primeira pedra. Tratou-o do jeito que todos, omissos, o destravam por medo: mal, sem hora marcada. A surpresa fez daquela neve uma bola. E o sujeito pedante mudou de bairro, desmistificado, mas com o nariz em pé!



  • Giz de cera 6:38 am | 24 Apr
    Giz de cera e nenhuma moderação. No vacilo da mãe, Dafine pintou os cabelos, aos cinco anos. Laranja, lilás e branco. Quando completou os dez tratou de pedir ao primo Plínio que lhe acariciasse, como na novela. Parecia sábia, aos quinze. Emburrada e ensimesmada feito uma pensadora de Rodin. Aos poucos, aos dezoito, foi perdendo as aparências. Ganhou desleixos, um carro e antipatias. Só no terceiro ano da faculdade se descobriu paradoxalmente tímida e histérica. Nem era muito tarde para ser feliz... Passava horas se modificando, depois que trocou a terapia pelo photoshop.



 

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